A origem de Diálogos em Saúde Coletiva já fala muita coisa sobre suas possibilidades. Ele nasce de encontros múltiplos, espaços de fala e escuta, trocas de experiências, do vivido. O encontro como uma máquina semiótica é um emissor de potência. Os bons encontros têm o efeito de aumentar a capacidade de agir. É o que fortalece a resiliência, e faz com que, mesmo em cenários adversos, nos mantemos em condições de produzir vida em nós e no outro.
A produção coletiva expressa solidariedade. Esta palavra que traz em si uma grande força, é um conceito de prática comunal, que tem o efeito de antídoto para o egoísmo e a ganância. Ela apresenta a possibilidade de desmontar o traço concorrencial, com o qual o neoliberalismo se instaura como uma subjetividade incorporada aos coletivos. A solidariedade produz a soma das potências entre as pessoas que se encontram em relação. A partir dela o que era forte, se torna mais forte; mais livre, mais sensível, em um mundo que se perde no brutalismo.
Um livro que tem como base o encontro, e transborda solidariedade, é capaz de ativar nas pessoas e coletivos a ideia de cuidado, mobiliza à vontade, o que nos faz produzir de forma criativa um modo de vida.
É assim que entendemos uma obra, mais do que um livro, é um dispositivo fronteiriço, que anda na borda do mundo convidando-nos para ultrapassar fronteiras, transbordar. O filósofo camaronês Achille Mbembe no diz que o grande problema do mundo são as fronteiras, através delas, se organizam as opressões, pela definição dos limites dos povos no acesso aos recursos do mundo moderno. Limites que são físicos, simbólicos, mentais, corporais, mas sempre vão produzir a interdição do outro, pessoas e coletivos. O mundo fronteiriço traz nas penosas as marcas do colonialismo, ele mata o sonho, assassina futuros antes de nascerem. O livro como dispositivo se transforma em uma arma de guerra simbólica e eficaz, contra este tipo de realidade. Ele vela o sonho que já se foi, e ressuscita-o para novas perspectivas históricas.
As ideias veiculadas no livro não têm limites, porque não há fronteira capaz de detê-las. Possuídas pela imaginação, podem percorrer caminhos que ressignificam seu sentido, lhe dá novas formas, rompe grilhões do pensamento normativo. Os “corpos-fronteira” conhecem todas as opressões. Eles se amparam naquilo que o livro traz, para construir a sua libertação. Dar um voo imaginativo sobre o mundo é um ato de rebeldia necessário. Um livro pode disparar processos de ressignificações de mundo, ativação de coletivos, colocar as pessoas em movimento para o ato criativo de cuidar, produzir vida, ativar mundos.
Diálogos em Saúde Coletiva é um livro dispositivo. Ele pode!
Mês e ano de publicação: fevereiro de 2026







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