homem-sem-história a narrativa como criação de cidadania

Sobre a Obra

O homem-sem-história é calado e imóvel, fazê-lo falar é já começar a tirá-lo desta posição muda e sem movimento. E no silêncio de sua triste morada, no máximo se podem escutar alguns sussurros. Mas, com certeza, não serão vozes amistosas e acalentadoras que se escutarão. Onde ele habita só se podem escutar murmúrios fantasmagóricos, que desde sua terrível e violenta intervenção mantêm a imobilidade e a mudez, desprovido que está de sua própria presença no mundo.

Por vezes acompanhado de outros homens-sem-história como ele, é possível encontrá-lo facilmente deambulando pelos corredores dos manicômios que, inaceitavelmente, em pleno século XXI, ainda sustentam seus grossos muros de tijolos e cimentos impregnados de diagnóstico, prognóstico, cronificação institucional e exclusão. Manicômios presentes inclusive nas estruturas que se erigiram como um modelo substitutivo à grande internação, mas também daqueles manicômios que invadem as relações interpessoais, que mesmo fora de qualquer serviço sociossanitário regem o nefasto réquiem do preconceito em relação às pessoas que não se encaixam em uma suposta normalidade construída culturalmente. Pessoas que iniciam um itinerário terapêutico nos serviços de saúde mental, um caminho que muitas vezes é uma condenação perpétua ao tratamento, e que, quando somente entendidos pela sintomatologia e prognóstico da enfermidade pela qual foram diagnosticados, é também o percurso que as leva à mudez e à imobilidade da condição de homem-sem-história.

Este livro é fruto de uma investigação que busca analisar as condições da ascensão na atualidade dessa condição, análise esta que terá nos problemas de saúde mental um papel importante, mas não único, bem como se buscarão as possibilidades de promover sua queda, cujo caminho é a criação de cidadania. Nesse sentido, e tendo em vista que fazer esse homem-sem-história falar já é o início de sua queda, a hipótese apresentada como possibilidade de intervenção contra tal condição é a que tem na narrativa seu principal elemento constitutivo. Uma narrativa que se constituirá como ação política, na direção da liberdade e da pluralidade e que, neste trabalho, terá continência num projeto comunicacional. Trata-se Rádio Nikosia, que a partir de Barcelona, Espanha, vem emitindo suas ondas de cumplicidade, liberdade e luta contra o estigma em saúde mental.

Organizadores: Márcio Mariath Belloc
ISBN: 978-65-87180-27-4
DOI: 10.18310/9786587180274

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1 Comentário

  1. Nara Regina costa da Silva

    Bem interessante deve ser. Confesso que tive que ler e reler cada frase aí escrita. Mas acho que entendi. Parabéns Márcio. És um exímio narrador de palavras difíceis. Hehehe

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